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sexta-feira, 17 de julho de 2009

J.K. Rowling: A mulher por trás do menino mago


The New York Times
Por Mike Hale
Ao ser perguntado tendenciosamente sobre como é viver com sua mulher, o marido respondeu com uma apreciação ágil na forma de uma leve crítica.

"Quando está muito estressada, ela se isola e só confia em uma pessoa, que é ela mesma", diz ele. "Então todo mundo fica bloqueado, e ela fica cada vez mais estressada e cada vez menos capaz de aceitar nenhuma ajuda."

Sua precaução pode ser explicada pelo fato de ele estar dentro de um jato privado, uma recompensa pela determinação de sua mulher. O nome dela é J.K. Rowling, e seu editor alugou um avião para transportá-la a Londres para o lançamento de "Harry Potter e as Relíquias da Morte", o sétimo e último livro da série de imenso sucesso de Potter. "Diga a verdade", disse ela ao marido, Neil Murray. Eu vou, ele responde. "Excelente", diz ela.


O momento, com seus sinais misturados de afeição e obsessão, é típico de "J.K. Rowling: A Year in the Life" ["J.K. Rowling: Um Ano na Vida"], documentário de uma hora de duração que está sendo exibido pela ABC na quinta-feira à noite, um dia depois do lançamento do sexto filme de Potter, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe". Jo, como quase ninguém a chama, revela-se inteligente, engraçada e autodepreciativa, e também um pouco ranzinza, alguém cujas antipatias e inseguranças estão próximas da superfície e podem em pouco tempo deixar as coisas sombrias.

"Um Ano na Vida", dirigido pelo escritor e cineasta britânico James Runcie e exibido na Inglaterra em 2007, combina entrevistas, clipes de filmes de Harry Potter e cenas de Rowling escrevendo "Relíquias da Morte" (supostamente vemos ela digitar as últimas palavras num hotel em Edimburgo, Escócia) e participando da comoção em torno de seu lançamento.

Não há nenhuma novidade para qualquer um que tenha prestado atenção em Rowling e seu trabalho durante os últimos dez anos - já sabíamos que ela estava no seguro desemprego quando escreveu o primeiro livro de "Potter" e que Dumbledore é gay - mas as legiões de fãs provavelmente ficarão fascinados por vê-la tão de perto, e felizes de ignorar o brilho promocional.

Runcie conseguiu atingir um tom estranho, que é em grande parte submisso mas ao mesmo tempo um pouco cruel. O filme começa e termina com uma versão irritante de 20 perguntas, disparadas com rapidez para uma Rowling evasiva. Sua característica mais marcante? "Sou uma pessoa que tenta." Se ela já se sentiu uma fraude? "Menos à medida que fico mais velha, mas já me senti."

Ele também a pressiona para falar de religião. Ela acredita em Deus? O corpo inteiro de Rowling se revolta contra a impropriedade da pergunta. Ela se inclina e desvia os olhos antes de balbuciar: "Ah, sim", mas ela admite ser "cheia de dúvidas em relação a muitas coisas". Runcie pressiona: Ela acredita na vida depois da morte? "Sim, acho que sim."

A história frequentemente contada da família de Rowling é relatada mais uma vez - seu relacionamento tenso com o pai, a morte da mãe por complicações da esclerose múltipla, seu primeiro casamento "curto e verdadeiramente catastrófico", sua depressão enquanto sustentava a filha com o seguro desemprego. Dá vontade de ouvir a versão da história contada pelo pai ou pelo primeiro marido, mas este é o show de Rowling.

Entretanto, ela deixa a máscara cair; sua necessidade de controle não é tão grande como a de alguns astros do cinema ou executivos corporativos. Ao visitar a igreja que ela varria quando criança para ganhar algum dinheiro, ela dá um gritinho agudo ao ver seu nome no livro de convidados - "Ei, veja, sou eu! Aqui estou" - de um jeito que parece espontâneo e revelador. No carro, no caminho de volta para o evento de lançamento de seu livro, ela descreve sua ânsia por um
cigarro: "Comigo são 40 por dia ou nada."

Depois Runcie a leva de volta, pela primeira vez, para seu apartamento pré-Potter (bem confortável, para os padrões de Nova York). A cena ensaiada se transforma em algo mais à medida que as emoções tomam conta de Rowling. Parada na sala onde escreveu o primeiro livro de Harry Potter, ela chora copiosamente enquanto diz que foi ali que sua vida mudou.

Relativamente, pouco tempo é gasto nos livros de Potter e seus significados, mas Rowling diz que ela sempre imaginou uma missão para derrotar um ser "que acredita que pode se tornar imortal matando outras pessoas". Na verdade, esta não é uma descrição ruim para alguns escritores de best-sellers.

Tradução: Eloise De Vylder


Fonte:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2009/07/17/ult574u9515.jhtm

"http://ttglibrary.files.wordpress.com/2009/07/jk-rowling.jpg"

domingo, 7 de junho de 2009

Piadas foram herdadas dos gregos da mesma forma que filosofia e democracia



Pesquisadora britânica diz que humor atual vem de 2.000 anos atrás.
Ela estuda o 'Philogelos', mais antigo livro de piada de que se tem notícia.

Essa é velha: um barbeiro, um careca e um professor estão viajando juntos. Eles precisam parar para acampar à noite, e revezam a vigilância das bagagens ao longo da noite. Quando é a vez do barbeiro ficar acordado, ele fica entediado e raspa a cabeça do professor. Quando o professor é acordado para seu turno, ele sente sua cabeça e diz: “que estúpido é esse barbeiro. Ele acordou o careca no meu lugar”. Se não teve tanta graça ler essa piada hoje, é bom saber que todas as piadas que têm graça atualmente devem muito a ela, que era bem popular na Grécia de 1.600 anos atrás.

“O humor antigo, o riso, foi herdado dos antigos gregos da mesma forma como herdamos a ideia de democracia, a filosofia”, explicou, em entrevista ao G1 a pesquisadora britânica Mary Beard, que vem analisando o “Philogelos”, mais antigo livro de piadas de que se tem registro. O livro traz uma lista com 260 brincadeiras no estilo desta acima.

O "Philogelos" pode ser visto quase como um elo perdido das piadas. Ele traz o formato de piadas como as que usamos até hoje, e faz com que tenhamos uma ideia muito simples e clara do que é uma piada.

À primeira vista, era de se esperar que o tipo de piadas de 2.000 anos atrás seria muito diferente, mas não. O humor da antiguidade, disse, era muito parecido com o atual. “O humor é universal. As pessoas de todo o mundo riem das mesmas coisas. Há uma herança maior desse humor no mundo ocidental, naturalmente", diz.

Quando pensadores começaram a tentar entender o que era o humor e o que fazia as pessoas rirem, durante a Renascença, eles se voltaram para a Antiguidade Clássica, para entender a idéia de piada. "Da Renascença, herdamos a estrutura de piada como é usada no mudo ocidental atualmente, com personagens semelhantes e frases de efeito parecidas. Aprendemos com os antigos, e acabamos reproduzindo mesmo dois milênios depois.”

Mudanças


Claro que as piadas antigas não são exatamente iguais às de hoje. Não rimos de tudo o que eles achavam engraçado na época, explicou. O humor tinha liberdade para ser mais politicamente incorreto, zombando de pessoas com deficiência, por exemplo, o que praticamente não existe mais atualmente.

Um tema frequente nas piadas da época estava a questão da identidade. Havia uma grande preocupação dos antigos com ideia de saber quem eles eram, e as piadas refletem um pouco isso. "Essa preocupação não existe mais atualmente, então as piadas sobre este assunto não funcionam mais tão bem atualmente. As piadas ajudam a entender um pouco a cabeça das pessoas da época.”

Uma outra piada do livro ajuda a exemplificar isso: Dois homens se encontram depois de muito tempo sem se verem. Um deles diz: “que estranho, me disseram que você tinha morrido”, e o outro responde: “bem, você pode ver que continuo vivo”, mas o primeiro discorda e replica: “A pessoa que me disse que você morreu é muito mais confiável de que você”.

Segundo Beard, não é possível falar em evolução no humor, mas percebe-se que ele, naturalmente, passou por mudanças com o tempo. “Hoje não rimos mais de problemas de identidade, temos um maior controle com o politicamente correto. Na época, não se fazia piada sobre crianças, que á algo muito popular nas piadas modernas. Há mudanças que acompanham a cultura, as piadas refletem a mentalidade da época, mas o formato básico continua o mesmo”, disse.




http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1052225-16107,00.html

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Governo de Santa Catarina pensa mais em sexo em que literatura"

artigo de Alessandro Martins

O escritor Oscar Wilde disse certa vez que não existem livros morais ou imorais: existem sim livro bem escritos e livros mal escritos.

Ele está certo, mas no que diz respeito à literatura para escolas, é claro, é necessário tomar cuidado, afinal há crenças, pudores e a puericultura em jogo.

Ao adotar um livro para o ensino público, um governo precisa avaliar com precisão o material a fim de que não tenha de retirar de sua listinha de compras - que inclui elásticos para dinheiro, clipes, papel higiênico e, possivelmente, cotonetes - 130 mil exemplares de determinada obra sob os holofotes espalhafatosos de um espetáculo ridículo.

Veja: a avaliação tem de ser anterior, visto que a suposta formação moral dos jovens deveria estar no mesmo patamar que a formação literária e artística dos mancebos e donzelas. De maneira que a suposta formação moral não prejudique a artística e a artística não prejudique a moral.

O escritor Cristóvão Tezza foi vítima recentemente da inversão dessa ordem.

É legítimo que um sistema de ensino adote para si os valores morais que melhor lhe convierem, visto que trata-se de um sistema de ensino e visto que conveniência e moral costumam andar saltitantes e de mãos dadas pelas calçadas da História.

Mas, por favor, façam a coisa direito. Não tal e qual patetas.

O governo de Santa Catarina comprou 130 mil exemplares do livro Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza, para que seus estudantes o lessem e fizessem provinhas de interpretação de texto. Lá pelas tantas alguém descobre três ou quatro linhas que descrevem sexo (não encontrei um plugin de WordPress que fizesse aparecer as chamas do inferno em torno da palavra sexo).

E, finalmente, por conta disso a compra é cancelada. Os livros são jogados na fogueira e o escritor também, com prejuízos morais que ele descreve em um excelente texto.

•Leia Não Me Adotem, de Cristóvão Tezza
A impressão que se tem depois desse episódio é que alguém do governo leu a orelha do livro, a biografia do autor (viu que se trata de um catarinense) e disse: “Ei, Johnny! Acho uma boa idéia adotarmos esse livro para nossos alunos fazerem provinhas de interpretação de texto, parceiro!”.

Sem mais.

Ou seja, o governo compra 130 mil exemplares - enfileirados são uns 30 quilômetros de livros (sim, eu calculei) - sem uma avaliação profunda da obra sob o microscópio dos padrões morais socialmente e governamentalmente hoje convenientes. Afinal é só um livro.

Isso demonstra o valor que o governo dá à literatura e ao que os seus alunos leem.

E quando alguém descobre, por acaso, que há um parágrafo de sexo (fogo, fogo do inferno!) lá no meio de uma das páginas, as luzes se acendem e as engrenagens da inquisição começam a rodar. Afinal é SEXO!!!!! (achei a cor vermelha, aleluia!)

Isso demonstra o valor que o governo dá ao sexo e ao que seus alunos pensam a respeito dele.

Não entrarei nos significados que tudo isso tem, pois confio no poder de seu discernimento, caro leitor, cara leitora.

Não entrarei nos méritos morais do Governo do Estado de Santa Catarina, mas esse é um caso clássico em que, para preservar-se os valores morais, feriram-se profundamente os valores éticos.

E mostrou-se como esses dois conceitos podem andar separados.

fonte:http://livroseafins.com/2009/06/04/governo-de-santa-catarina-pensa-mais-em-sexo-que-em-literatura/

"Na busca da sabedoria, o primeiro estágio é calar, o segundo ouvir, o terceiro memorizar, o quarto praticar, o quinto ensinar."Rabi Salomon Ibn Gabirol (Século XI; Espanha)

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